IA no prontuário: o que diz o CFP e como usar com ética

por Mauricio Moraes
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Muita gente que atende em psicologia já ouviu falar de ferramentas que gravam a sessão, transcrevem e organizam o prontuário. A pergunta que vem em seguida é sempre a mesma: o Conselho permite? A resposta honesta tem duas partes. Existe orientação do CFP sobre IA, mas, até onde consegui verificar, ainda não existe uma resolução específica que regule o uso de IA no prontuário. Vale separar bem o que está escrito do que é interpretação.

Este texto não é parecer jurídico nem substitui a orientação do seu Conselho Regional. Serve para você saber onde procurar e como montar uma rotina segura.

O que o CFP já disse sobre IA

Em julho de 2025, o Conselho Federal de Psicologia divulgou uma nota de posicionamento sobre inteligência artificial no contexto da prática psicológica. É uma nota, não uma resolução: ela não tem o caráter de norma vinculante e informa que um grupo de trabalho do CFP ainda elabora diretrizes. Os pontos que a nota destaca, em resumo:

  • Supervisão e responsabilidade. O uso de ferramentas de terceiros não retira a responsabilidade do psicólogo. A IA não substitui o juízo técnico e ético do profissional, que pode ser orientado e fiscalizado pelos Conselhos Regionais.
  • Sigilo. Dados de saúde mental pedem cuidados redobrados de sigilo, consentimento e responsabilidade profissional.
  • Consentimento e LGPD. Qualquer coleta ou análise de dados psicológicos com apoio de IA deve ser precedida de consentimento livre, informado e transparente, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados.
  • Vieses. Cabe ao profissional avaliar se o sistema reproduz vieses ou discriminações.
  • Atendimento sem mediação humana. O CFP manifesta preocupação com serviços automatizados, como chatbots terapêuticos, sem mediação humana qualificada.

Note a diferença entre os dois cenários. A preocupação mais forte do Conselho é com a IA que substitui o psicólogo na relação terapêutica. Usar IA como apoio administrativo, para transcrever e organizar um registro que você vai revisar e assinar, é um cenário distinto. A nota, porém, não diz explicitamente “isso pode” ou “isso não pode” para transcrição de sessões. Por isso o caminho prudente é aplicar os princípios gerais: sigilo, consentimento, responsabilidade e supervisão crítica.

Como o tema está em movimento, antes de decidir consulte o site do CFP e do seu CRP para ver se saíram diretrizes ou resoluções novas.

O que continua valendo, com ou sem norma sobre IA

Mesmo sem uma resolução específica, o psicólogo segue sujeito a regras que já existem:

  • Código de Ética Profissional (Resolução CFP 010/2005), que trata do sigilo e da responsabilidade pelo trabalho prestado.
  • Registro documental e documentos escritos. A Resolução CFP 001/2009 trata da obrigatoriedade do registro documental e a Resolução CFP 06/2019 orienta a elaboração de documentos escritos. Confirme no site do CFP a versão e o conjunto de normas vigentes, já que podem ter sido alteradas.
  • LGPD. Dados de saúde são dados pessoais sensíveis e exigem base legal e cuidados reforçados. O verbete LGPD e dados sensíveis do glossário resume o essencial.

Na prática, isso significa que o fato de uma ferramenta usar IA não muda quem é responsável pelo prontuário. Continua sendo você.

Cinco riscos reais a considerar

1. Vazamento ou uso indevido do áudio. Antes de usar qualquer ferramenta, descubra onde o áudio é armazenado, por quanto tempo e quem tem acesso. Pergunte também se os dados são usados para treinar modelos.

2. Consentimento superficial. Um “tudo bem se eu gravar?” dito de passagem não é um consentimento informado. O paciente precisa entender o que será gravado, para quê, como será tratado e que pode recusar sem prejuízo ao atendimento.

3. Erros de transcrição e de organização. A transcrição pode errar nomes, medicamentos e números, e a organização automática pode dar peso indevido a um trecho. Um erro no prontuário é um erro seu.

4. Excesso de informação no registro. Ter a sessão inteira transcrita facilita o acúmulo de conteúdo que não deveria estar no prontuário. O registro deve trazer o necessário para a continuidade do cuidado.

5. Efeito sobre o vínculo. Para alguns pacientes, e em alguns momentos clínicos, a gravação muda o que se diz. Isso é uma decisão clínica, não técnica.

Checklist prático para usar IA no prontuário

Use como ponto de partida e adapte à sua realidade e às orientações do seu CRP.

  1. Leia a política de privacidade e de segurança da ferramenta. Onde ficam os dados, por quanto tempo, quem acessa, se há uso para treinamento de modelos.
  2. Informe o paciente antes, por escrito. Explique que a sessão será gravada, a finalidade, como o áudio é tratado e que ele pode recusar. O modelo de termo de consentimento para gravação de áudio e IA pode servir de base, e o de consentimento LGPD para dados de saúde complementa.
  3. Registre o consentimento antes de gravar, e não depois.
  4. Aceite a recusa sem constrangimento. Quem não quer ser gravado segue em atendimento normal, com registro manual.
  5. Decida caso a caso. Em situações de maior vulnerabilidade, ou quando a gravação interferir no vínculo, não grave.
  6. Revise tudo antes de salvar. Confira nomes, medicações, datas e o peso dado a cada tema. O que entra no prontuário é o que você validou.
  7. Corte o que não é necessário. O rascunho da IA costuma ser mais longo do que precisa. Enxugue.
  8. Defina o que fazer com o áudio. Guardar só pelo tempo necessário é uma boa prática, e a política deve estar clara para o paciente.
  9. Use contas individuais e senhas fortes. O acesso ao prontuário é seu e do paciente, não de terceiros sem autorização.
  10. Documente a sua decisão. Se você adota IA no consultório, tenha por escrito como funciona o seu fluxo. Isso ajuda em eventual questionamento.

Como o Ordexa trata esses pontos

No Ordexa, o fluxo é: você grava o áudio, a IA transcreve e organiza no formato da especialidade ou em SOAP, DAP ou BIRP, e o profissional revisa e assina. O consentimento do paciente é registrado antes de gravar. O rascunho gerado é um ponto de partida, e o conteúdo final é de responsabilidade de quem assina. Detalhes sobre segurança e LGPD estão na página de segurança, e o funcionamento geral está no guia de prontuário com IA.

Se quiser testar, o plano Grátis atende até 50 pacientes, com 30 ações de IA por mês e 14 dias de IA ilimitada ao começar. Veja as condições em planos e o sistema para psicólogos. Se preferir não usar IA, o prontuário funciona normalmente com modelos de anotação, como o de evolução de sessão psicológica, e o texto sobre DAP, BIRP e SOAP ajuda a organizar o registro.

Em resumo

Não há, até onde se pôde verificar, uma resolução do CFP que proíba ou autorize especificamente a transcrição de sessões por IA. Há uma nota de posicionamento que reforça sigilo, consentimento livre e informado, supervisão crítica e responsabilidade do profissional, e há normas anteriores que continuam valendo. Se você mantiver o consentimento por escrito, a revisão humana e o cuidado com o que entra no registro, estará alinhado ao que o Conselho vem sinalizando. Na dúvida sobre um caso específico, consulte o orientador do seu CRP.

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Mauricio Moraes

Mauricio Moraes

Engenheiro formado no ITA e apaixonado por aviões. Ele gosta de aplicar a tecnologia para facilitar as tarefas do dia a dia.

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